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Perdão, sem desculpas

O futuro do trabalho é emotivo: as emoções são inerentes ao indivíduo e definem as dinâmicas que afetam a motivação, a saúde e a comunicação

Perdoar e desculpar não são verbos sinônimos e entender a diferença é a solução de um sem-número de conflitos. Ambos têm raízes fincadas na religião e na filosofia, mas ocupam cada vez mais as ciências sociais e comportamentais.

Nomear o que se sente é uma técnica da psicologia que ajuda o indivíduo a assimilar o funcionamento das emoções, independentemente do juízo de valor que se faz delas; é a partir daí que se torna possível uma mudança de comportamento e atitude.

Durante a pandemia, a relação do indivíduo consigo mesmo e com o mundo transborda culpa e julgamento – dois lados da mesma moeda de infelicidade. Entender o ato de perdoar é criar uma possibilidade para ressignificar as dores emocionais a que estamos sujeitos.

A escritora e filantropa inglesa Hannah More, escreveu em pleno século 18: “O perdão é a economia do coração: economiza as despesas da raiva, o custo do ódio, o desperdício de espíritos”.

Perdão e desculpa são palavras quase opostas
Uma das mais contundentes diferenciações entre perdão e desculpa foi cunhada pelo professor e teólogo irlandês Clive Staples Lewis, autor do romance de fantasia “As crônicas de Nárnia”:

“Perdão e Desculpa são palavras tão banais no uso, que nem desconfiamos da diferença entre elas. Em um certo sentido, elas são palavras quase opostas. O Perdão nos diz ‘ok, você fez isso, mas eu aceito seu pedido de perdão […] Já a Desculpa fala ‘eu percebo que você não podia evitar, sei que realmente você não queria fazer isso; você não é culpado’. Assim, um ato falho sem culpa precisa de desculpa, e não de perdão. Da mesma forma, boas desculpas não precisam de perdão – já que o perdão exige culpa – e se você quer ser perdoado, não há desculpas para o que fez – pois pedir perdão é assumir a culpa. Porém, isso não invalida a possibilidade de haver os dois ao mesmo tempo. O problema está em pedirmos desculpas para aquilo que exige perdão”.

Ter ciência de nossas emoções e daquelas que transmitimos é uma ferramenta de transformação rumo ao bem-estar duradouro, inclusive no ambiente profissional. O futuro do trabalho é emotivo, as emoções são inerentes ao indivíduo que carrega consigo as dinâmicas emocionais que afetam sua motivação, saúde e comunicação. “Sentimentos não são inimigos que precisam ser combatidos, eles precisam ser aprendidos” explicam Liz Fosslien e Mollie West Duffy, autoras de “Sem Neura”, lançado no Brasil em 2020.

Para elas, existem três etapas para construir um grande pedido de desculpas:

“Admita seu erro. Suprima o impulso de explicar suas ações – isso geralmente faz você parecer defensivo ou pior, como se estivesse dando desculpas (que já é uma outra história). Se quiser dar contexto, certifique-se de que ainda está assumindo a responsabilidade pelo que fez.
Diga ‘Sinto muito’. Muitos ‘pedidos de desculpas’ não são explícitos. Uma boa regra ao dizer ‘Sinto muito’ é parar após essas duas palavras. A maneira mais rápida de entrar no território do falso pedido de desculpas é acrescentar ‘se [meu comportamento rude] fez você se sentir assim’. Não insinue que a outra pessoa está sendo excessivamente sensível – assuma o controle – e a responsabilidade – do seu erro.
Explique como isso não acontecerá novamente. Diga à outra pessoa o que você fará de diferente no futuro para não repetir o erro.”
O ato de se desculpar passa a ser decisivo para o convívio pacífico. Uma desculpa mal dada causará um transtorno ainda maior e por isso precisamos estar atentos a sua forma – é o que explica o autor e psicólogo organizacional Adam Grant, num artigo para o jornal “The Times” Segundo o autor, as formas mais falhas de desculpas são:

A “if-pology” (a desculpa do se) – Eu não estou dizendo que fiz isso, mas, se eu tivesse feito, eu realmente sentiria muito.
A “no-fault” (não foi minha culpa) – Claro, eu fiz algo errado, mas não sabia que estava errado na hora.
Há também a “pre-pology” (desculpa antecipatória) – Estou confessando meus pecados antes que alguém me acuse, mas sou a verdadeira vítima aqui. Tenho muitos demônios de infância.
E, finalmente, há a “un-pology” (desculpas em negação) – Minhas desculpas foram genuínas, mas, eu não fiz o que pedi desculpas, então nego.
Um sincero pedido de desculpas reconhece que suas escolhas afetaram negativamente o outro. “É o reconhecimento da transgressão da mágoa, mesmo se você achar que foi legítimo e justificado”, diz a terapeuta Esther Perel em um podcast com Grant. “O reconhecimento envolve um elemento de remorso ou culpa – às vezes pelo que você fez a outra pessoa, não necessariamente por sua própria ação.”

Muitas vezes estamos tão focados em defender nossos motivos, que deixamos de ver e admitir as consequências de nossas ações. Não importa se pretendíamos machucar alguém. “Assumir a responsabilidade é retomar o seu poder.” Importante também explicar como você planeja melhorar no futuro. “Você não pode corrigir seus erros se não explicar como vai consertar ou prevenir o problema daqui para frente”.

O autor explica ainda que devemos cumprir o compromisso firmado, e só depois de ter de fato feito uma mudança no padrão de comportamento que se deve pedir perdão. O perdão não deve ser concedido quando prometemos mudar, mas, ser conquistado, assim que cumprirmos essa promessa.

Mudança de motivação

Num artigo de 1997, publicado no “Journal of Personality and Social Psychology”, da American Psychological Association, os cientistas sociais Michael McCullough, Everett Worthington e Kenneth Rachal definiram o perdão como uma mudança na motivação nas relações humanas e as categorizaram como o conjunto de mudanças motivacionais pelas quais alguém se torna cada vez mais motivado a:

retaliar um parceiro de relacionamento ofensor
manter o afastamento do ofensor
conciliar-se com o ofensor, apesar de suas ações prejudiciais
“Nossa hipótese é que a empatia pelo parceiro ofensor é a condição facilitadora central que leva ao perdão. Uma variedade de fenômenos pró-sociais, como cooperação, altruísmo e a inibição da agressão parecem ser facilitados pela empatia pela outra pessoa”.

Perdoar não é esquecer

O perdão é parte intrínseca dos princípios da fé cristã, sendo citado várias vezes na Bíblia. De acordo com o Padre Walteir Gonçalves Magalhães, perdoar é a oportunidade de fazer pelo próximo o que Deus espera de cada um. “Se a gente quer preservar a vida, o passo é este. É preciso perdoar quem está do meu lado, dar uma chance a mais. Isso não significa que a pessoa esquecerá. Perdão não é ter amnésia, não é concordar com o erro, com a injustiça, com a violência, de modo nenhum. Não é se conformar com isso, mas é não mais dar valor à ferida, e, sim, dar uma esperança ao futuro, como possibilidade de reconstruir e viver”.

Somos 7,8 bilhões de habitantes no mundo Vivemos em um dos planetas, de uma – entre bilhões (ou trilhões) de outras galáxias, acompanhados de bilhões de outros astros. A pandemia do covid-19 já custou mais de 4 milhões de vidas.

O confronto do nosso ego com o referencial que esses números proporcionam inexoravelmente nos perturba, pois aponta a insignificância do indivíduo perante o todo. Contudo, oferece-nos, a uma segunda vista, a oportunidade de um novo olhar diante de das adversidades da vida. O nosso tamanho real em relação ao universo é também um exercício de humildade.

“Somos só um em sete bilhões” em busca de uma felicidade duradoura, cita o Dalai Lama no livro “Contentamento” (Douglas Abrahm, Dalai Lama, e o Arcebispo Desmond Tutu); “Nossos inimigos são os nossos professores espirituais mais especiais, perdoar é ter uma nova chance de recomeço”.

O perdão é tido pelos líderes espirituais como um pilar fundamental para uma satisfação duradoura, perdoar não é esquecer, mas definir o que permanece, deixando sua vida mais leve. Analogamente, a perspectiva sob a qual enfrentamos os desafios também é um pilar que fundamenta nosso bem-estar: “O sofrimento por uma catástrofe natural está fora do nosso controle, somente a forma como lidamos com nossos desastres diários nos cabe”.

A ilusão de controle e a infelicidade
Suas santidades têm razão, como fundamentado em pesquisas. Não controlamos nada além de nossas ações e atitudes, mas determinadas situações nos influenciam a acreditar no contrário. É o chamado “viés da ilusão de controle”, identificado pela professora de psicologia de Harvard, Ellen Langer, nos anos 1970. Desprezamos rapidamente o efeito do inesperado, quando temos familiaridade de resposta. Com isso, tendemos a nos sentir mais confiantes, corremos mais riscos e somos frustrados com maior intensidade quando o esperado não ocorre, afinal, o controle era só uma ilusão estatística. A pandemia, que chegou de forma inesperada e imprevisível, despertou a necessidade de entendimento do autoperdão. O que não controlamos, não podemos mudar.

Experimentamos ainda o contato com um fator estressor compulsório adicional durante a quarentena: o contágio. Nossas escolhas passaram a impactar diariamente não só a nossa saúde, mas determinar a sobrevivência de outros. O quanto estamos dispostos a renunciar de nossas vontades para promover autocuidado, mas também a segurança daqueles mais vulneráveis?

Passamos por uma espécie de teste avançado promovido por um acontecimento alheio à nossa vontade. Erramos diante do desconhecido e erramos de novo ao nos sentirmos familiarizados com a situação e, como acreditamos erroneamente estar no controle, elevamos nossas mágoas, nossos rancores, direcionando-os a tudo e todos, inclusive a nós mesmos.

É fácil compreender porque os dados do Relatório Oficial Mundial de Felicidade, da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da ONU, mostram aumento expressivo de casos de depressão e ansiedade por todo o globo. Nossa saúde mental está comprometida e estamos carentes de perdões e desculpas e de sermos desculpados e perdoados.

Fazendo as pazes com você

Perdoar a si mesmo passa pelas mesmas etapas que perdoar o outro ou pedir perdão. As variáveis da equação não mudam quando o “x” da questão somos nós mesmos. A cura tem início quando encontramos uma nova atitude que se diferencie do fato gerador da culpa, exatamente como descrito sobre a nossa relação com o outro. Descobrir se houve um aprendizado, pôr em prática uma mudança de atitude, o fato é que precisamos fazer algo com a nossa culpa e, de tão simples, não precisamos de prova, além de pensarmos por um minuto no efeito que isso provoca.

Você pode usar a sua culpa para conscientizar outros, a sua vivência pode ser útil para evitar que o mesmo ocorra com outras pessoas ou você pode encorajar pessoas, engajar-se para promover um bem superior. Ao agir dessa maneira, você começa a dar um job, um propósito à sua culpa. Segundo David Kessler, maior especialista mundial sobre o Luto: toda perda pessoal significativa gera um luto – independentemente do que você aprendeu, o significado é o sexto estágio do luto.

Deixe sua culpa trabalhar a favor de todos, começando por você. Assuma a responsabilidade que lhe cabe e altere positivamente o resultado da história. Segundo o psicólogo Adam Grant: “Quando você magoar alguém, pense sobre seus valores essenciais. Se compaixão, justiça ou generosidade aparecerem em sua lista, você pode perceber que pedir desculpas (e/ou perdão) não significa admitir que você é uma pessoa má. É apenas um passo para te tornar uma pessoa melhor.”

Fonte O Especialista: https://oespecialista.com.br/opinioes/perdao-sem-desculpas/

Sandra Teschner

Administradora de empresas, pós-graduada em Neuropsicologia e Chief Happiness Officer certificada pela Florida International University. Fundadora do Instituto Happiness do Brasil, um centro de estudos e projetos de Felicidade Intencional. É jornalista, autora, palestrante e engajada social.

Sandra Teschner

Happiness Trainer

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