A importância da vida depois das perdas

Há um processo que se inicia no momento que algo é ceifado de maneira definitiva da nossa vida. É preciso passar por todas as suas etapas, para honrar o que se perdeu A pandemia da covid-19 impõe a experiência diária de perdas de diferentes naturezas para todos, com diferentes gravidades e também diferentes recepções. É possível dizer que todos, indiscriminadamente, perdemos o mundo que conhecíamos. Nada que se compare com a perda de um ente querido ou da própria saúde, fatos cotidianos no Brasil. Mas no cérebro, sentimento de perda de um sonho de vida tem o mesmo efeito de uma partida inesperada e não desejada. O luto é um processo emocional que se inicia a partir do momento que algo é ceifado de maneira definitiva da nossa vida: um emprego, uma relação, um projeto de vida, uma pessoa. “A tarefa, do ponto de vista psicológico, é a de enfrentar a morte e encontrar uma maneira de viver com ela”, define Julia Samuel, terapeuta especializada em luto e autora de “This Too Shall Pass”(Isso também vai passar). A escritora desvenda ainda um outro tipo de luto, que ela nomeia como “perdas em vida”, e que incluem o divórcio, a demissão ou a vida como a conhecíamos. A pandemia fez aflorar essas duas formas de luto e ainda trouxe uma nova e poderosa variante, um sentimento de múltiplas perdas, inclusive de segurança, em senso comum, sentido, ao mesmo tempo, por milhões de pessoas. E esse desconforto coletivo ganhou nome próprio, que em português vem sendo chamado de “definhamento”. O termo, uma tradução do inglês “Languishing”, não é novo e foi cunhado pelo psicólogo americano, Corey Keyes em 2002 com a publicação: “Do definhamento ao florescer na vida”, onde relatou um meio termo entre a depressão e o bem-estar. A novidade em relação ao uso dessa expressão está em seu alcance. A melancolia transita do nível micro para o macro, do indivíduo para a grande parte da população, um coletivo letárgico. Lições dos mais diversos estudos da ciência do bem-estar são apostas de antídotos, por profissionais renomados nas mais diversas áreas do comportamento humano. “Definhamento é uma sensação de estagnação e vazio. É como se você estivesse confundindo seus dias, olhando para sua vida através de um para-brisa embaçado”, escreveu o psicólogo Adam Grant em um artigo para o jornal New York Times. “Enquanto os cientistas e médicos trabalham para tratar e curar os sintomas físicos do covid 19, muitas pessoas lutam contra a longa duração emocional da pandemia. Alguns de nós ficaram despreparados, quando o medo intenso e a dor do ano passado se dissiparam.” Efeito nocebo Em psicologia é comum categorizar como “luto antecipatório”, o estado de medo das incertezas sobre o futuro, uma espécie de mau presságio. Nosso cérebro primitivo identifica que algo negativo está por vir, e nos coloca em um sistema de alerta, também comumente descrito como “lutar ou fugir”. Este estado emocional, seus efeitos e antídotos também foram amplamente discutidos por Sandro Formica, Ph.D em Ciência da Felicidade na Florida International University. Em publicação de abril de 2020, ele chama a atenção para o chamado efeito nocebo, uma espécie de versão danosa do tão conhecido efeito placebo. “Em todo lugar, falamos sobre aspectos objetivos, taxas de perigo e mortalidade do coronavírus, contudo nessa situação delicada os aspectos subjetivos são igualmente importantes. Um tema fundamental está relacionado ao efeito placebo, cientificamente comprovado, que pode ativar a química do nosso corpo para resolver nossos problemas internos. Da mesma forma, podemos ativar o efeito nocebo, que também tem comprovação científica, embora menos conhecido, e que compromete negativamente nossa química interna. Sob o Nocebo, nos sentimos doentes e nossas defesas imunológicas despencam”. Formica lembrava que se deve evitar as notícias alarmantes fora do que é útil ou se possa combater. “Nós só controlamos nossas ações e atitudes. A informação deve ser usada para a prevenção, se não gera sofrimento e compromete a saúde mental das pessoas”. Entre suas sugestões para manutenção de um estado mental positivo, estão: Concentre-se no que você pode afetar Trabalhe com o que está no presente Seus pensamentos e ações estão sob seu controle, faça uso deles a seu favor Depois de ter feito o que está a seu alcance, deixe as coisas seguirem seu curso Anote: “Uma pessoa feliz não é uma pessoa em um determinado conjunto de circunstâncias, mas, sim, uma pessoa com um determinado conjunto de atitudes Não reprima sua dor, ela faz parte do processo de cura Dê sentido à vida, algo que seja maior do que você Nesse contexto, fica fácil entender por que o “luto” foi exatamente o tema mais viral da história da Harvard Business Review. Trata-se de uma entrevista do editor Scott Berinato com David Kessler, no ano passado. Kessler é coautor com Elisabeth Kübler-Ross do icônico os “Os Segredos da Vida”, obra que classificou os 5 estágios do luto. Em seu novo livro, adicionou uma outra etapa ao processo: “Encontrando Propósito. A sexta etapa do luto” (em livre tradução). “O luto é, na verdade, múltiplos sentimentos que devemos administrar”. O psicólogo explica como os cinco estágios clássicos do luto: negação, raiva, barganha, tristeza e aceitação se aplicam hoje na era da covid-19, adiciona propósito (ou significado) a estas,  e identifica as melhores práticas para lidar com o definhamento. Entre os ensinamentos de Kessler sobre perdas, algumas lições difundidas pela Ciência da Felicidade Compreender os estágios do luto, sabendo que eles não são lineares: “Há algo poderoso em chamar esse sentimento que estamos vivendo agora de luto. Isso nos ajudar a entender o que está ocorrendo dentro de nós” Se permitir sentir suas dores emocionais Reconhecer e equilibrar os maus pensamentos com os bons Focar no presente “A mesa é dura. O cobertor é macio. Posso sentir a respiração entrando pelo meu nariz. Isso realmente funcionará para amortecer um pouco dessa dor” Abandonar coisas que você não pode controlar: não controlamos a existência do vírus, mas controlamos a decisão de usar máscaras, lavar as mãos, ou manter um distanciamento social Encontrar