Sandra Teschner foi uma das entrevistadas do Huffpost Brasil para a matéria : “ É possível ser feliz em 2020?”

Sandra Teschner
Sandra Teschner

A Chief Happiness Officer ressalta que “ é possível ser feliz em qualquer tempo, porque se trata de um estado de ser, e não de sentimentos momentâneo os. Lembra ainda que pessoas felizes sentem suas dores, a diferença bem em como lida com elas, em como ressignificam as dificuldades. Em situações complexas a todos, os felizes sem dúvida, serão os primeiros a encontrarem as saídas, já que a ciência prova a alta capacidade resiliente deste estilo de vida”.

O texto na íntegra você confere abaixo.

PandemiaCicloneAtaque de gafanhotos. Trabalho remoto em péssimas condições. Ou ainda pior, desemprego. Racismo pra todos os lados. Um governo que parece não se importar com a educação e saúde dos mais necessitados. Passar o dia vendo ou participando de lives com uma internet horrível. E às vezes um conteúdo meio sem graça. Saudade da família. Saudade dos amigos. Saudade até de reuniões enfadonhas no trabalho. Falta de concentração pra tudo. Ansiedade lá em cima.

Isso tudo sem ter direito a sentir os prazeres mais simples e importantes da vida. Tomar uma cervejinha no bar? Balançar a bunda numa festinha? Flertar com estranhos? Transar pela primeira vez com o futuro amor da sua vida? Pegar um cineminha mesmo pra ver um filme ruim? Ir num show qualquer?

Esqueça. Esqueça. Esqueça. Esqueça. Esqueça. Esqueça.

É pensando nesse cenário apocalíptico que resolvemos responder a pergunta: é possível ser feliz em 2020? Já adianto que a resposta é depende, mas vamos com calma.

Pra começo de conversa, há um tempo o brasileiro já não estava muito feliz. De acordo com o Estudo Global da Felicidade, realizado pelo Instituto Ipsos, em 2019, 61% dos brasileiros se consideraram felizes ou muito felizes. Em 2018 essa proporção era de 73%. A média global também caiu. No mundo, o índice saiu de 70% para 64% de 2018 para 2019.

Saúde e bem-estar, emprego que faça sentido, sentir que a vida faz sentido, segurança pessoal e sentir que está no controle da vida foram os principais assuntos apontados pelos brasileiros como fontes de felicidade nesse estudo. Tudo que parece estar um pouco ameaçado pela pandemia do novo coronavírus e as crises de 2020.

A executiva Sandra Pessini, diretora da Comunicação do Ipsos no Brasil, explica que esses dados neste momento de pandemia apontam um desafio muito grande para todos os países. Segundo ela, sete estágios envolvem a pandemia e a forma como as pessoas lidam com ela: descrença, preparação, adaptação, aclimatação, resiliência, expectativa e medo. A descrença foi vista quando as pessoas ainda não acreditavam que o vírus iria transformar nossas vidas, e o medo é o que já se vê em países onde a pandemia foi controlada, e agora há o medo do retorno à vida normal e do retorno do vírus.

“Tudo isso gera uma ansiedade muito, muito grande”, explica Sandra. Uma pesquisa realizadas em 16 países pelo Instituto Ipsos para mostrar como as pessoas estão lidando com a pandemia revelou que os brasileiros são os que mais sofrem ansiedade em relação à pandemia de covid-19. “É um dado muito forte, 41% dos entrevistados estavam sofrendo por causa da pandemia. Este sentimento é mais forte entre as mulheres, é de 49%.”

Por estes e outros dados, podemos então dizer que os brasileiros estão mais tristes ainda em 2020? Sandra afirma que as pesquisas recentes não fizeram essa análise, mas “o palpite é justo”.

Ela lembra que existem momentos de alegria, claro, “os brasileiros começaram a fazer pães, na minha timeline pelo menos temos um monte de amigos e colegas fazendo pães, isso dá uma alegria, uma emoção positiva”. Mas ela pondera: “se fizéssemos a pesquisa da felicidade neste momento, acredito que esse resultado vai ser bem baixo”.

A política também causa preocupação e as constantes crises no governo brasileiro trazem um cenário de menos felicidade. “Tem também a questão da polarização política e que no Brasil tem um lado muito agressivo, principalmente nas redes sociais. Isso tira também um pouco do sossego e atrapalha a felicidade até em família”, explica Sandra.

Apesar desse cenário difícil, resolvemos conversar com pessoas com diferentes visões de mundo se é possível sermos felizes em 2020.

Perguntamos para a cartunista Fabiane Langona; as jornalistas Maristela Rosa e Natália Romualdo, do canal Papo de Preta no YouTube; a especialista em felicidade Sandra Teschner; o youtuber Klébio Damas; a DJ e podcaster Laurinha Lero; o idealizador do Congresso Internacional da Felicidade, Gustavo Arns; o biomédico Jonathan Vicente; e o ator e roteirista Daniel Furlan (aqui respondendo como o personagem fictício Craque Daniel), se é possível ser feliz em 2020.

Que as respostas inspirem você:

Fabiane Langona é cartunista, já trabalhava em casa desenhando antes da pandemia surgir, o que a poupou do infortúnio de ter de se adaptar a esse cenário. Os demais estresses do dia a dia, porém, seguem firmes. Para ela, “a felicidade é um conceito meio abstrato, como diria o grande poeta popular Odair José ‘felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes’”.

Momentos assim são difíceis de viver em 2020. “Eu acho que se tu tens o mínimo de empatia e não é indiferente ao mundo ao redor, é impossível estar totalmente plena, a não ser que seja um coração gelado. Acho que agora as coisas estão piores, acho que nunca passei na minha vida por um momento tão tenso que eu tenha me sentido tão angustiada. Acho que todo mundo está muito cansado, ansioso e nervoso.”

Porém, Fabiane acredita que não é impossível ter seus bons momentos no dia a dia, mesmo se for necessário se desligar um pouco do mundo. “Manter o controle é uma tarefa difícil. Eu tenho tentado levar minha vida de uma forma com que as minhas variações hormonais estejam controladas, que eu tire alguns dias para não fazer nada, uma espécie de alienação proposital. Pelo menos um dia da semana eu não vejo televisão, não leio jornal, não vejo notícias, porque isso me suga muita energia. Pra mim pelo menos é muito importante ter uns momentos de solidão total, de não ter contato com nada externo, de descansar mesmo.”

E esse momento de tensão em que vivemos acaba refletido nas tirinhas que ela publica diariamente no caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo. ”É impossível fugir de alguns temas e eu procuro às vezes fazer umas coisas mais superficiais para que as pessoas possam ter algum respiro e ler alguma coisa leve. Não acho que meu trabalho tenha de ser alheio à realidade, mas eu procuro fazer algo mais suave às vezes para que as pessoas possam ter pelo menos uma fruição”.

O que, na realidade, ela acredita que seja algo independente de termos uma pandemia ou qualquer crise envolvida, é algo que faz parte dela: “são essas felicidadezinhas pequenas que fazem diferença em momentos como esse. Eu procuro valorizar essas coisas, eu sou assim de forma geral”.

Maristela Rosa e Natália Romualdo são jornalistas, parcerias e donas do canal Papo de Preta no YouTube, que, como elas mesmas descrevem “existe para dar vez e voz à mulher negra”. Desde 2015 elas falam de cultura pop, cotidiano, beleza e sociedade. Neste ano, viram a produção de conteúdo do canal mudar bastante depois da pandemia. Mas se sentem gratas pelo que estão fazendo, o que reflete na felicidade de ambas.

“Eu fico feliz por estar mais próxima da minha família e de estarmos com saúde e termos comida na mesa, por ter acesso à internet, que me possibilita interagir com as pessoas que amo e prosseguir com o trabalho no Papo de Preta”, explica Natália. Mas neste momento ela pensa que é preciso mudar um pouco os nossos ideais: “acredito que é possível ter momentos de felicidade, principalmente se nós ressignificarmos o conceito de felicidade e olharmos com mais carinho para o que já temos, ao invés de pensar, somente, no que queremos conquistar”.

A possibilidade de ter momentos de felicidade é o que anima Maristela: “é importante compreender que ser feliz não é um estágio que você alcançou e nunca mais vai sair. Tem altos e baixos, tem dias que você está mais feliz, tem dia que você está menos feliz. Este ano que a gente está sendo obrigada a ficar em casa, a felicidade está mais em olhar pra gente mesmo do que olhar pra fora”.

Elas contam que 2020 começou muito bem e com as expectativas lá em cima. “Eu pensei que “2020 seria o meu ano”, confessa Natália, rindo. “Os 3 primeiros meses do ano foram ótimos pra mim! Eu tinha vários planos e consegui tornar alguns realidade. Quando a pandemia chegou e a minha ficha caiu, foi desesperador, principalmente porque parecia que tudo estava desmoronando ao mesmo tempo. Demorou pra eu perceber que eu precisava ter mais paciência comigo e com as pessoas ao meu redor. Mais do que nunca, é preciso estar mais atento às pequenas coisas e deixar que elas façam a diferença.”

“O primeiro semestre do ano parece que aconteceu já faz uns 3 anos. Todo mundo estava reclamando tanto que janeiro demorou a passar, mas acho que todo mundo se pudesse voltaria pra janeiro”, brinca Maristela, que lembra com muito carinho e emoção da viagem que fez pra praia no começo do ano. “Eu fui a praia no finalzinho de janeiro, tava tudo maravilhoso a gente ainda via que o vírus tinha chegado na França, na China, mas a gente não entendia quais seriam as proporções disso.”

Quando questionadas se acham que as pessoas do convívio delas estão mais tristes, elas dizem que sim, mas ao mesmo tempo veem o ano de 2020 com esperança: “As pessoas ao meu redor estão mais tristes, apesar de tentarem manter o otimismo do jeito que é possível. Vejo que muitas se esforçam ao máximo para manter um pouco de esperança que seja e se agarram com unhas e dentes nos momentos felizes que surgem. E eu vejo que a valorização desses momentos de felicidade acontecem, principalmente, porque essas pessoas sabem que existem outras cuja situação é muito pior que a nossa”, conta Natália.

“Pra quem é brasileiro a gente vive muitas crises e é difícil, mas há meios de ter momentos de felicidade. A gente está vendo tantas coisas difíceis acontecendo que é difícil estar mais feliz, mas há momentos de felicidade”, torce Maristela.

Se você procurar felicidade no Google tem grandes chances de chegar ao nome da Sandra Teschner. Ela é jornalista, escritora, palestrante, administradora e há 5 anos estuda a ciência da Felicidade. Sandra resolveu se dedicar tanto ao assunto que fundou o Instituto Happiness Brasil, que ensina a ciência da felicidade por meio de profissionais de desenvolvimento humano. Ela não cansa de ouvir de muita gente a expressão: “como que uma pessoa pode ter tanto ânimo?!”.

Sandra conta que começou a buscar conhecimento sobre felicidade quando teve uma experiência de quase morte, um erro médico que quase tirou sua vida. Foi nesse momento que percebeu que estava passando por muito stress, ansiedade, que não estava se cuidando e tudo estava muito bagunçado. “Aí eu comecei a estudar felicidade, fui fazendo cursos, li muito e fui pra universidade.” Sandra é formada como Chief Happiness Officer, pela Florida International University (FIU).

“Acredita-se que 50% da nossa felicidade é genética, 10% é circunstancial, e pra isso existem testes e evidências científicas que comprovam sem ser achismo, e 40% é ‘aprendível’, vem da nossa capacidade de sermos felizes. É algo acessível. Eu não tenho como mudar o ano de 2020, mas eu tenho como me adaptar”, detalha Sandra. Por isso ela acredita que é, sim, possível ser feliz em 2020 mesmo com todos os problemas que vivemos.

“Tristeza, angústia e decepção todos viveremos; a questão é como você sai delas e qual sua capacidade de resiliência com o que acontece na sua vida”, ensina. Ela conta que, como muita gente, está com uma série de problemas em 2020, mas mesmo assim escolhe ser feliz todos os dias. Para a especialista, a felicidade é um estado de ser, uma atitude.

“A felicidade é um antídoto à depressão, à ansiedade. Claro que uma depressão instalada é uma doença e deve ser tratada por um profissional, mas o importante é não precisar chegar em uma enfermidade. Entenda o que é gratidão, procure no seu dia a dia quais razões, mesmo com todos os seus problemas, você tem para agradecer.”

– SANDRA TESCHNER, ESPECIALISTA EM FELICIDADE

Infelizmente não existe uma receita de bolo para ser feliz, mas felizmente é possível ter algumas atitudes que melhorem seu jeito de ser. Algumas você já deve ter ouvido, mas sempre vale repetir.

Buscar relações com pessoas que te aceitam como você é, sem precisar ser um personagem, é algo muito importante. Fazer atividades físicas, qualquer atividade, deixa as pessoas mais felizes. “Eu não estou quero saber se a pessoa tem barriga tanquinho, estou falando em fazer alguma coisa [que faça movimentar].”

Outra possibilidade é fazer um ato de solidariedade. “Atitudes solidárias beneficiam mais quem faz do que quem recebe. Isso é ciência. Aí você me diz ‘eu nem posso doar dinheiro no momento’, mas eu não falei de dinheiro. Eu falei de qualquer coisa, um repost de uma pessoa que abriu um negócio, assistir uma live de quem está começando um canal, qualquer atitude cidadã beneficia mais a pessoa que doou. Isso é científico”, conta Sandra, sempre muito empolgada.

Sabe aquela frase que diz que “alegria de pobre dura pouco”? De acordo com Sandra, ela está muito errada pois alegria de rico também dura pouco. “A gente sabe que os hormônios gerados pelas emoções negativas são de metabolização lenta. Então quando os gafanhotos chegam e a gente toma aquele susto, isso é metabolizado devagar, por isso a gente tende a remoer. Já os hormônios da felicidade são metabolizados rapidamente e você precisa mais rápido da sua próxima emoção positiva para você não ser consumida por ela; por isso a alegria dura pouco.”

Klébio Damas, youtuber

Qual o lugar menos recomendado para estar em 2020 quando estourou a pandemia de coronavírus? A China. Onde o youtuber Klébio Damas estava gravando vídeos de viagem justamente nessa época? Isso mesmo, na China.

“No começo foi bem complicado, meu psicológico lá ficou muito abalado. Primeiro por já começar o ano perdendo a viagem que tinha planejado por meses. Estava preso em um país que começou o corona sem conseguir voltar pra casa, eu nem saí do hotel direito de tanto medo”, conta.

Klébio estava no país gravando vídeos para o seu canal que tem mais de 1 milhão de seguidores, teve de largar tudo e voltar para um mundo completamente novo. “Quando cheguei ao Brasil foi um caos porque me tirou 100% da rotina, e o sentimento de pânico tomou conta geral. Não conseguia focar em nada além do corona”, recorda.

Mesmo vivendo numa situação que não era de sua vontade e tendo largado alguns planos para trás, será que é possível ser feliz em 2020? Ele não hesita em pensar positivo: “Simm, clarooooo! A felicidade é muito particular e possível de se adaptar. Acho que é possível mas nossa cabeça está tomada de preocupações, então temos que tentar focar no que realmente importa e ver a felicidade nos detalhes do dia a dia”.

Klébio acredita que passado o caos do começo da pandemia que mudou o mundo, agora as pessoas estão encontrando novas formas de terem momentos de alegria. “Eu senti que no começo teve aquele pânico geral. A gente teve de criar uma nova rotina. Algo que ninguém nunca tinha vivido, nunca houve uma geração, nem a nossa nem a anterior que tivesse que ficar tanto tempo em casa. As pessoas estão acostumando mais, o que é bom para poder focar em outras coisas sem tanto sofrimento.”

Laurinha Lero, DJ e podcaster

Quando convidei a DJ Laurinha Lero para participar desta reportagem, a resposta veio com uma sincera demonstração de alegria: “Aqui tá super alto astral, energia lá em cima. Eu topo conversar, sim”. Laurinha é podcaster, DJ e apresentadora do Respondendo em Voz Alta, atração que já foi ouvida por mais de 2 milhões só no Spotify.

Em nossa conversa por telefone, a felicidade realmente se mostrou muito presente. Laurinha acha que neste ano é totalmente possível ser feliz, inclusive por experiência pessoal.

“Eu comecei 2020 super mal, no início da pandemia eu estava muito mal e eu tive um momento de crise. Foi no momento em que o nosso ilustre presidente declarou que iria começar a tratar o vírus com o vermífugo Annita. Foi um dia que foi uma catarse pra mim. Eu tinha virado a noite escrevendo e fiquei muito confusa porque eu fiquei pensando ‘como vocês vão tratar um vírus com um vermífugo???’”, relata com tom de voz completamente desesperado, seguido de calmaria. “Mas eu, que tenho uma inteligência mais modesta, mais acessível, entendi. Eu comecei a chorar com a notícia e sinto que eu atravessei alguma coisa e fiquei bem.”

Laurinha faz uma leitura do nosso presente com muita clareza e paz de espírito: “Eu acho que o esperado é que a pessoa esteja surtada neste momento. Então não estar surtado é meio que um surto em si. Eu acho que a minha loucura chegou a um ponto que eu atravessei e fiquei bem, eu estou muito feliz agora. Eu entrei num estado que é imodesto estar melhor”.

Perguntei para a Laurinha, que conversa com muita gente, se as pessoas ao redor dela estão mais tristes neste difícil ano de 2020 e infelizmente as notícias não são tão boas. “As pessoas com que eu convivo são muito mais estudadas e inteligentes que eu, eles são grandes intelectuais. Então eles têm uma capacidade de entender o que está acontecendo e estão super mal. Mas existem alguns momentos de alegria”, conta.

“Tem uma amiga que está ansiosa pra quando a vacina sair porque ela vai poder ir pro Hopi Hari, um lugar onde é socialmente aceitável gritar. O grito em público só é permitido em certos lugares. O Hopi Hari é um deles. Ela está na expectativa de ficar o dia inteiro gritando. Eu acho que a gente está vivendo essa expectativa de momentos melhores.” Não seria ideal regularizarmos e aceitarmos o berro em nosso cotidiano? Minha pergunta veio com uma nova proposta para as autoridades competentes.

“Eu acho que é uma questão de tempo. Muita gente já está procurando uma certa variante disso, que é aproveitar que a máscara cobre metade do rosto. Amigos meus comentam que andam pela rua fazendo careta embaixo da máscara, mostrando a língua pras pessoas, com um pouquinho mais de privacidade. Quem sabe se a gente precisar andar por aí em uma bolha de plástico a gente não possa gritar lá dentro sem ninguém ouvir?!”, provoca.

No meio de tanto caos, Laurinha finaliza com uma dose de esperança: “Eu acho que na verdade está melhorando. O novo normal é pior de uma forma tão nova que é uma distração”.

Gustavo Arns, especialista em felicidade, fundador do Festival de Felicidade e idealizador do Congresso Internacional da Felicidade

Gustavo Arns é mais um especialista em felicidade entrevistado para esta reportagem. Ele é fundador do Festival de Felicidade e idealizador do Congresso Internacional da Felicidade, o maior evento de felicidade da América Latina. Para ele, é preciso olhar para a tristeza e entender que tudo bem se sentir assim. “Eu penso que se nós não nos sentíssemos tristes, teria algo brutalmente errado conosco. Faz parte da nossa capacidade humana de compaixão e empatia se entristecer.”

Entretanto, ele explica que isso não pode se tornar um grande problema, é preciso usar essa emoção para nos fortalecer. “Eu não posso deixar que essa tristeza se torne apatia, depressão e nos paralise. Quando eu lido de maneira saudável com essa tristeza, posso utilizá-la como um combustível pra minha ação. Por exemplo, se o que me entristece é a situação dos menos favorecidos, o que eu posso fazer para ajudar? É participar de uma campanha de doação de alimentos ou produtos de limpeza? Assim eu estou usando essa tristeza como um combustível pra minha ação”, orienta.

Ele salienta ainda que “independentemente da situação que a gente esteja vivendo, sempre existem motivos para sermos felizes. Todos nós podemos encontrar pelo menos um motivo que nos alegre ao longo do dia, com cuidado sempre de não entrar na síndrome de Poliana e achar que está tudo bem. Não está tudo bem, estamos passando por um momento complexo”.

Caso você não se lembre, Pollyanna é a personagem que dá nome a um livro da escritora Eleanor H. Porter que vê tudo de um jeito bom, tudo é legal, tudo é positivo. Ela era tão feliz, mas tão feliz, tudo fica tão bem, que muitos leitores (eu, inclusive) desse clássico acham que a menina é completamente chata e alienada. A obra deu nome até a essa tal síndrome de Poliana, também chamada de Polianismo.

Gustavo acredita que em geral as pessoas estão aproveitando da situação do isolamento social por causa da pandemia para “refletir sobre a vida pré-pandemia e como era toda aquela agitação do dia a dia”.

“Tem um conceito muito interessante da normose, a patologia da normalidade. A gente olha para um sistema doente e aceita. Uma hora para sair do trabalho e chegar em casa não é normal, não pode ser. Mas a gente normaliza. Precisamos ter um olhar consciente sobre o que de fato faz sentido na vida. Há reflexões profundas sobre o que é essencial nas suas vidas.”

– GUSTAVO ARNS, ESPECIALISTA EM FELICIDADE

Ele também destaca que as pessoas estão ainda lidando com o luto do dia a dia. “Eu vejo as pessoas entristecidas, a gente está vivendo um momento de luto, não só pelas vidas perdidas, mas o luto de perder algo que nos era querido. Estamos vivendo múltiplos lutos, e isso tem um impacto no nosso bem-estar.”

Apesar de tudo, também é possível escolher focar na felicidade do dia a dia. “Todos os dias, em todos os momentos, em todos os lugares, existem milhares de motivos para me entristecer. Mas por outro lado, todos os dias, em todos os momentos, em todos os lugares, existem também milhares de motivos para me alegrar. Onde eu escolho colocar o foco da minha atenção e como eu lido com aquilo que eu estou sentindo?”, provoca Gustavo.

Jonathan Vicente, biomédico

Esta investigação sobre a felicidade estaria incompleta sem ouvir um profissional envolvido com a área da saúde, algo tão caro a todos neste momento. Para isso, conversei com o biomédico patologista clínico e mestrando da Faculdade de Medicina da USP Jonathan Vicente, que esteve na linha de frente no combate ao covid-19. Confesso que pensei que encontraria respostas tristes para este momento, afinal os profissionais de saúde estão lidando com muitas perdas no dia a dia. Mas ele acredita que, sim, é possível ser ou estar feliz em 2020 mesmo com tudo que aconteceu até agora.

“Precisamos trabalhar nosso psicológico, pelo bem-estar e pela coletividade. Se você está em isolamento, está ajudando outra pessoa e a si mesmo a não se infectar. A pandemia veio para nos fazer refletir sobre algumas coisas e pensarmos mais na coletividade. Nada foi planejado, as coisas infelizmente acontecem, e temos de refletir bastante sobre isso.”

Jonathan acha que todos, do seu jeito e de acordo com a sua vida, podem seguir esta linha de pensamento. “Eu não vejo as pessoas felizes. Acredito que as pessoas não estão tão felizes quanto deveriam estar. Existe aquele processo de sabermos lidar com isso e é possível ‘ser feliz’, de uma maneira que a gente tente levar nossa vida da forma mais maleável possível.”

O biomédico nos conta sobre como os profissionais de saúde foram pegos de surpresa. “Mudou muita a rotina de profissionais da saúde. Nós, profissionais de saúde que estávamos, por exemplo, planejando descansar e tirar férias, fomos obrigados a deixar tudo de lado para trabalhar na luta para proteger as pessoas. No início do ano eu tinha uma organização completamente diferente do que veio depois de março. A pandemia mudou bastante o meu trabalho, o que eu vivia antes e depois. E posteriormente à pandemia, em 2021, a gente ainda vai colher as consequências, ela vai deixar rastros na nossa vida social, então temos que cuidar bastante do nosso psicológico para conseguir atravessar os próximos meses, os próximos anos”, alerta.

Daniel Furlan, ator, roteirista e autor. Aqui representado pelo personagem Craque Daniel, coach, ex-jogador e apresentador/empresário de atletas

O ano de 2020 não tem sido muito fácil para quem busca a felicidade a qualquer custo, mas depois de ler o livro Você Não Merece Ser Feliz – Como Conseguir Mesmo Assim, do coach e apresentador do programa Falha de Cobertura, Craque Daniel, tudo fica um pouco mais acessível. Lançada justamente neste ano, veja que coincidência, a obra mostra que o “a felicidade não só é possível como é sua obrigação”.

Dividida em 3 partes – ”Ética, bom senso e outros conceitos obsoletos”, “Comodismo” e “Individualismo” e 26 toques para reflexão (como ”às vezes é difícil separar a coragem da burrice e a persistência da falta do que fazer”), a obra confirma o que muita gente sabe de cor: só não é feliz quem não quer.

Craque Daniel nos conta que a principal motivação para escrever esse importante manual veio da vontade de ajudar e de ganhar dinheiro, claro (ninguém tem tempo a perder): “eu, como um coach natural, tenho a dádiva de sentir o cheiro da amargura alheia e me ofereço humildemente para solucionar esses problemas (em troca de uma certa quantidade de dinheiro)”.

Gostaria de abordar dois conceitos muito interessantes e, acredito, de grande serventia para você, leitor. O primeiro é o da maionese caseira… Daniel explana que o importante para encontrar a felicidade é não ser afoito, algo que acomete quem faz maionese caseira e transforma sua existência numa desesperada corrida contra o tempo para ingerir todo e qualquer tipo de alimento antes que ela estrague e o leve a uma morte horrível.

O segundo é algo que tem muito a ver com o momento terrível em que estamos vivendo agora pois estamos diariamente entre a vida e a morte com um vírus letal à solta. Craque Daniel afirma que quando a pessoa sofre uma experiência de quase morte começa a “valorizar mais a vida” e assim encara a vida como uma grande aventura, transformando atividades como o paraquedismo em práticas corriqueiras.

Como nenhum ser humano fica em paz o que o tem, o sujeito acometido pela paixão pela vida acaba então virando praticante da mais difícil atividade que existe: o triatlo. O que nos faz pensar se depois que a epidemia de coronavírus passar teremos uma explosão de praticantes de triatlo pelo mundo.

Porém, nosso coach não acredita nessa possibilidade: “A nossa sociedade sempre existiu sob uma certa tensão, amedrontada com uma possível explosão de felicidade generalizada que poderia, sim, trazer uma epidemia de triatlo ou até mesmo malabares pelo mundo. Mas, como ensino no livro, há uma quantidade disponível de felicidade no mundo insuficiente para satisfazer a todos. Em outras palavras, o mundo é um grande aniversário dos Supermercados Guanabara, onde assim que as portas da oportunidade se abrem, consumidores correm e se pisoteiam uns aos outros numa corrida mortal por produtos em promoção”.

Quando indagado qual dos toques do livro é o mais importante para ter um 2020 pleno e cheio de alegrias, Craque Daniel não pensa duas vezes para responder: “Quem não odeia ninguém não tem coração”.

Para encerrar nossa conversa, fiz a grande questão desta reportagem ao coach: é possível ser feliz em 2020? A resposta foi tão positiva quanto seu livro: ”é possível ser feliz em qualquer época desde que as aspirações sejam reduzidas à mediocridade, que é ter a felicidade como único objetivo. Aí é se desesperar e correr pro abraço”.

Antes que você ache que ficamos loucos, lembramos que o livro lançado pela Editora Intrínseca é uma obra de ficção escrito por Daniel Furlan e Pedro Leite “como um exercício criativo de imaginar como ser um livro de autoajuda idealizado por esse ser abjeto”, como descrito na folha de rosto da publicação. Portanto, esta entrevista com Daniel Furlan também faz parte de um momento de ficção e brincadeira com esses conceitos.

Porém, assumo que eu concordo de verdade com o toque #7 do livro do Craque Daniel, “a vida não é um buffet onde você tenta comer tudo o que pode movido pela avareza e pelo desejo de causar prejuízo ao dono do restaurante”.

Bem, após ler tantas opiniões diversas, qual é a sua? Você crê que ainda pode ser feliz neste ano?

Fonte: https://www.huffpostbrasil.com/entry/e-possivel-ser-feliz-em-2020

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